fotos e grafias

Veja a foto, leia o texto e descubra em você novas emoções.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

entardecer nas salinas de cabo frio


Postado por suzana às 00:47 Nenhum comentário:

Colhereiro - Platalea ajaja Linnaeus, 1758




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suzana
Ipatinga, Minas Gerais, Brazil
............................. sou quem gosta de ver o que me cerca, com um olhar diferente. .............................
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Como surgiu Fotos e Grafias

Quem vê uma fotografia não consegue imaginar a sensação e o sentimento que aquela imagem despertou em uma pessoa, para que ela, usando uma câmera, tentasse captar aquele momento representado pela imagem.

Quem vê uma foto observa sua cor, define os contornos, tenta identificar as formas, analisa a luz, o foco, o que ela representa e a imagem que ela mostra. Na verdade é isso que um observador vê, mas é só isso, pois o sentimento do fotógrafo não tem como ser captado e mostrado para a pessoa que olha a fotografia.

Algumas pessoas conseguem colocar sentimento nas fotos que vêem e podem expressar seus sentimentos por palavras. Mas são sentimentos próprios, a emoção do fotógrafo ninguém é capaz de perceber.

Uma foto, que muitas vezes para o fotógrafo, é a sua obra prima, para um observador da fotografia pode não passar de mais uma simples foto de um arco-íris qualquer, de uma árvore qualquer, de uma coisa qualquer.

Uma flor é bonita por ela e não pela fotografia. Mas o que fez o fotógrafo clicar aquele momento, só ele sabe.

Muitas vezes deixei de mostrar as minhas fotografias, pois sabia que aquele sentimento ali era só meu e alguns deles eu não queria compartilhar ou porque já sabia por antecedência que as pessoas não olhariam aquela foto com a emoção que olhei a imagem que a gerou.

A foto para mim é a memória da minha emoção e a consolidação do sentimento que me invadiu no momento de fotografar.

Existem pessoas que não dão valor a sentimentos.
Olham fotos como folheiam revistas velhas, displicentemente, passam uma, e outra e outra, rapidinho para acabar logo. E agora, na era digital, o clique do mouse é acelerado.

Assim, achei melhor deixar guardadas as minhas emoções em forma de fotografia. E ficaram guardadas, guardadas e guardadas e agora resolvi mostrar umas ou outras.

A decisão veio a partir do momento em que percebi que as imagens podem despertar novos sentimentos em outras pessoas, diferentes daqueles que tive, mas tão bonitos e importantes quanto os meus no momento de fotografar.

Acreditei que pessoas especiais sabendo olhar e ver podem encontrar palavras para descrever as suas próprias emoções desencadeadas pela observação da imagem retratada.

Assim estabelece-se um encadeamento de emoções, pois a partir dessas palavras associadas à imagem, uma terceira pessoa ira ver a foto, ler o texto e novas emoções surgirão nessa pessoa, outros sentimentos ainda diferentes e tão bons quanto os desencadeados pela primeira visão da imagem pelos olhos do fotógrafo.

A partir desse momento reflexão e descoberta, venho convidando algumas pessoas para escrever aqui no blog as emoções que as minhas fotografias provocaram nelas e quero muito que essa dupla FOTO E GRAFIA desperte em você que está aqui, um sem fim de emoções NOVAS e que nossa maneira de ver e sentir o que nos cerca contamine você e, que assim, deixe registrado os seus comentários sobre tudo que passou pelo seu coração ao fazer conosco essa viagem entre imagens e palavras.

Para você que veio aqui, o meu carinho.
Suzana




o melhor de tudo é sorrir

o melhor de tudo é sorrir

ESCREVO O QUE NÃO SOU

Filha, para você, poeta da fotografia, este texto que me toca e me faz imaginar como você vê as imagens que fotografa.
Você que vê o que não vemos e mostra-nos sua alma na fotografia da Vida, vai entender porque envio as palavras deste incomparável escritor e filósofo do dia a dia de nós mortais.
Beijos,
mamãe


ESCREVO O QUE NÃO SOU

Rubem Alves

Há uma pergunta que, quando feita a um poeta ou escritor,
dói mais que picada de escorpião.
A mim, pessoalmente, nunca fizeram.
Mas fizeram a amigos meus.
Ele é do jeito mesmo como ele escreve?”
É uma pergunta nascida do amor: acharam bonitas as coisas que escrevi e agora estão curiosos para saber se me pareço com o que escrevo.
Como disse, nunca me fizeram a pergunta, diretamente.
Mas eu respondo.
“Não, eu não sou igual ao que escrevo”.
Sou um fingidor.
Quem disse isso, que o poeta é um fingidor, foi Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Fingir é palavra feia.
Sugere uma mentira, com o intuito de enganar.
No mundo de Fernando Pessoa ela tem um outro sentido.
Fingimento é aquilo que faz o ator no teatro: para representar ele tem de “fingir” sentimentos que não são dele.
E finge tão completamente que sente, realmente, uma dor que não é dele, mas de um personagem fictício, ausente.
Assim é o poeta.
Como pessoa comum, ele sofre.
Essa pessoa sofredora não sabe escrever poemas.
Ela só sabe sofrer.
Mas nessa pessoa que sofre mora um outro, o poeta, o duplo, heterônimo.
Esse poeta olha para si mesmo, sofredor, e “finge”: deixa-se possuir por aquela dor que é dele como se fosse de um outro:
“chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.
Sou um fingidor.
O que escrevo é melhor que eu.
Finjo ser um outro.
O texto é mais bonito que o escritor.
Fernando Pessoa se espantava com isso.
Ele tinha clara consciência de que ele era muito pequeno quando comparado com a sua obra.
Num dos seus poemas ele diz o seguinte:
Depois de escrever, leio…
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto?
Isto é melhor do que eu…
Vinha-lhe então a suspeita de que aquilo que ele escrevia não era obra dele, mas de um outro:
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta com que alguém escreve a valer o que nós aqui raçamos?
Contaram-me que ele, Fernando Pessoa, certa vez, aceitou encontrar-se com Cecília Meireles, e marcaram lugar, data e hora para o dito encontro.
Cecília compareceu e esperou.
Pessoa não foi e mandou, no seu lugar, um menino com uma desculpa esfarrapada. Esse incidente sempre me intrigou.
Será que Pessoa era um grosseiro indelicado?
Depois, lendo o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, encontrei uma curta afirmação que esclareceu tudo:
“Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver.”
Ao marcar o encontro com Cecília, movido pela delicadeza ou entusiasmo, ele se esqueceu disso.
Foi só na hora que lembrou.
Cecília amava os seus poemas.
Na ausência, certamente, fizera aquilo que todos fazem:
imaginou que o poeta se parecia com os seus poemas.
Agora, em algum hotel de Lisboa, ela se preparava para se encontrar com a beleza dos poemas na sua forma viva, verbo feito carne.
A decepção seria muito grande.
“Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver”
Assim, para poupar Cecília da decepção, ele preferiu não aparecer.
Àqueles que fazem essa pergunta a meu respeito, que imaginam que eu possa ser parecido com o que escrevo, aconselho:
“Não compareçam ao encontro. Fiquem com o texto.”
Não é mentira, não é falsidade:
a poesia é sempre assim.
A poesia não é uma expressão do ser do poeta.
A poesia é uma expressão do não-ser do poeta.
O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta.
Escrevo porque tenho sede e não tenho água.
Sou pote.
A poesia é água.
O pote é um pedaço de não-ser cercado de argila por todos os lados, menos um.
O pote é útil porque ele é um vazio que se pode carregar.
Nesse vazio que não mata a sede de ninguém pode-se colher, na fonte, a água que mata a sede.
Poeta é pote.
Poesia é água.
Pote não se parece com água.
Poeta não se parece com poesia.
O pote contém a água.
No corpo do poeta estão as nascentes da poesia.
Escher, o desenhista mágico holandês, tem um desenho chamado Poça de Lama:
numa estrada encharcada pela chuva um caminhão deixou as marcas dos seu pneus, onde a água barrenta se empossou.
Coisas feia e sujas, as marcas dos pneus de um caminhão, cheias de água barrenta: nenhum turista seria tolo de fotografar uma delas, quando há tantas coisas coloridas para serem fotografadas.
Pois Escher desenhou uma delas.
E o que ele viu é motivo de espanto:
na superfície de lama suja, refletidas, as copas dos pinheiros contra o céu azul.
Pensei que a poesia é isso:
poça de lama onde se reflete algo que ela mesma não contém.
A copa dos pinheiros contra o céu azul não está dentro da lama, não é parte do ser da lama.
Apenas reflexo: mora no seu não-ser.
Pensei que assim é o poeta: poça de lama onde o céu se reflete.
Nietzsche, escrevendo sobre a poesia de Ésquilo, diz que ela
“é apenas uma imagem luminosa de nuvens e céu refletida no lago negro da tristeza”.
E Fernando Pessoa, no poema daquele verso que todo mundo canta
- Valeu a pena?
Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena , diz o seguinte:
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.
É nessa contradição:
o céu se fazendo visível, refletido, na poça de lama, no lago negro da tristeza, no perigo e no abismo do mar.
Não. Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou.
Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria.
A poesia é sempre o reverso das coisas.
Não se trata de mentira.
É que nós somos corpos dilacerados -
“Oh! Pedaço arrancado de mim!”
O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está…
O poeta escreve para invocar essa coisa ausente.
Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade.
Enquanto pensava sobre essa crônica ouvi, por acaso, aquela balada que diz:
"like a bridge over troubled waters"
“como uma ponte sobre águas revoltas…”
Letra e música sempre me comoveram.
Na liturgia do casamento do meu filho Sérgio com a Carla, liturgia que preparei, pedi ao Décio cirurgião pianista que tocasse essa canção:
pois isso é o máximo que alguém pode ser para a pessoa amada: ponte sobre águas revoltas.
Pensei, então, que eu sou “águas revoltas” (onde eu mesmo quase me afogo).
O que escrevo é uma ponte de palavras que tento construir para atravessar o rio.
Assim, considero respondida a pergunta: não sou igual ao que escrevo.
Guardem o conselho de Fernando Pessoa.
É mais seguro não comparecer ao encontro.

Rubem Alves

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